31.10.12

Waiting for the sun


For Pasi, who was caught in a hurricane.


















 Ilustração: Geoff McFetridge

A vez dos sul-coreanos


Aí está o poster para o primeiro filme em língua inglesa de Park Chan-wook, o thriller psicológico Stoker. Não sei se será boa ou má notícia para os admiradores de Oldboy (que, por sinal, está a ser alvo de remake por Spike Lee, com Josh Brolin a retomar o papel de Choi Min-sik). O cartaz tem bom ar e parece indiciar que não estamos perante a típica chouriçada formular e previsível de Hollywood. O historial de realizadores "importados" é longo, mas, muitas vezes, o desajuste de sensibilidades e referenciais com a realidade mercantil dos estúdios norte-americanos leva a tremendos desastres, como ilustram os casos mais recentes de Killing Me Softly (Chen Kaige), The Invasion (Oliver Hirschbiegel), ou The Tourist (Florian Henckel von Donnersmarck). Alien: Resurrection, por exemplo, deixou uma mancha na saga e nunca saberemos se tal se deveu ao facto de a 20th Century Fox ter restringido agressivamente o controlo criativo de Jean-Pierre Jeunet, arredando-o posteriormente da pós-produção, ou se o universo de Jeunet simplesmente não se coadunava com o imaginário da série iniciada por Ridley Scott. Curiosamente, Stoker é produzido pela Scott Free, dos irmãos Ridley e Tony Scott, recentemente falecido. A ver vamos.

Portugal, os foristas, a saúde mental e o apocalipse

Na sequência desta impagável série, avanço com mais umas amostras edificantes de uma publicação que leva muito a sério a sua imagem, moderando escrupulosamente os comentários postados (é o termo) pela grossa (é o termo) maioria dos seus leitores (será o termo?).




























Activia


Saiu disparado.

Curioso. E profético. "Pelejão" rima com "sou um grande cagalhão e gosto de bater punhetas ao patrão ". Não sei porquê, passou-me pelo espírito. Não é poesia, não é prosa fina, mas tinha de sair. E já não tenho a barriga inchada.

30.10.12

Susan says


"Genius is the ability to stay in an uncomfortable situation the longest."

Li esta frase numa entrevista com essa mulheraça intemporal que é a Susan Sarandon - dotes artísticos inclusos - e senti-me reconfortado. Estou longe do engenho mas pelo menos fico com uma sensação de propósito.

Ilustração: Ben Newman

29.10.12

Sai um pastelinho pela Europa


Os verdadeiros obreiros da paz.

Ah, o Nobel da Paz. Esse notável prémio de feira pré-combinado. Que delícia. A porreiraça da Europa, unida, solidária e com um grande futuro apaziguador. O que se seguirá? O pastel de nata, senhores? A contribuição do pastel de nata para a harmonia universal? Pois já alguém viu um indivíduo agredir outro com um pastel de nata na boca? Ou imediatamente antes de devorar um pastel de nata? Ou logo a seguir? E alguma vez se viu alguém desperdiçar pastéis de nata nas ventas de um paspalho qualquer? Ele há tartes, ovos, gelatina, a ocasional mousse, legumes variados… Pastel de nata, não, pois não? E ele há alguém que NÃO GOSTE de um pastelinho de nata acabado de fazer? Nobel com ele! Caraças, um milhão de euros vai dar para umas valente jantaradas sobre tratados de paz, rematados por dúzias de pastéis de nata. Estou ansioso por saber do que se lembrarão para o ano. Do IKEA? Do Padre Marcelo Rossi? Das pombas brancas? Do Durão Barroso? Se for enfiado num espeto com um pastel de nata na boca, o Nobel reganhará toda a sua relevância e credibilidade.

A rainha dos Olivais




Não ajudou muito nas arrumações e foi alheia ao comité de boas-vindas que levou, da porta de casa e ao 3º dia, a minha bela (e recém-adquirida) bicla amarela. Mas testou possibilidades de disposição interior, experimentou áreas de conforto e ensinou-nos como, e onde, apreciar o Sol. Acima de tudo, está bem em qualquer lugar. E é sempre boa companhia.

26.10.12

Há-des ver se o filme é bom


É reconfortante ver o trailer para um filme português no qual o protagonista profere algo como: "Ela sabia que iam haver consequências para as suas acções...". O cosmos parece dar-me razão. Até argumentistas pensam que o verbo haver sofreu uma mutação bizarra. Boas novas, amigos, este verbo escapou aos inúmeros estragos e continua a ser impessoal nas acepções de "existir" e "acontecer" ("Ela sabia que ia haver consequências por ter faltado às aulas"; "Ele não sabia que havia inúmeras gramáticas") e a concordar com o sujeito nas restantes (surgindo sempre como auxiliar - "Eles haveriam de, eventualmente, aprender a conjugar verbos"; "Elas hão-de conseguir escrever como se tivessem completado a 4ª classe"). Não creio que seja uma boa entrada em cena para um instrumento "de cultura". Ou de lazer. Ou lá do que for. Chiça, já me viram aquele cartaz?!

Só porque sim

25.10.12

O Homem do Trator

 

Um pequeno filme, terno e sincero, sobre "a urgência de viver", como o próprio realizador, Gonçalo Branco, referiu na introdução à audiência do doclisboa, ontem à noite na Culturgest. Despido, sem a pesada sombra da condescendência (por total oposição ao filme que se lhe seguiu), O Homem do Trator é um retrato - em poucas mas certeiras pinceladas - da resistência ao declínio físico num contexto onde a vitalidade e a robustez sempre foram um imperativo de sobrevivência. A teimosa luta contra o tempo, pela identificação e pela pertença, é espelhada na relação cúmplice do velho camponês com a vetusta máquina de guerra que ainda o acompanha em grande parte das tarefas. Em dezanove minutos é-nos dada a essência de um longo percurso calejado, onde uma câmara não intrusiva deixa o bonito e o feio acontecerem como são e não como o realizador gostaria que fossem. Um primeiro trabalho que revela uma série de opções maduras.

Roleta russa


"Life is like a box of chocolates. You never know what you're gonna get", dizia o tonto da aldeia naquele popular filme que glorificava a pacovice (um pouco como Regresso a Casa, documentário português que vimos ontem, mas isso são outros quinhentos). E se temos que dar o desconto ao atraso do gajo pelo facto de os rótulos poderem antecipar inúmeras surpresas, o que dizer quando nos colocam à frente chocolates destes? São ucranianos e pretensamente exóticos. Pelo menos é o que depreendo das cores garridas, do arco bizantino e daquele shemale com mãos de estivador que acabou de dar à costa em Lilliput. Mas quando um indivíduo se propõe afincar o dente em tamanho delírio, vira o produto e o rótulo transmite-lhe que a sua audácia deve dar em merda. À imagem de toda e qualquer iniciativa que agora se possa ter. Um mero chocolate ucraniano transporta, portanto, mais filosofia do que uma caixa de pralinés cosmopolitas. 

Para que conste, adiei a experiência por tempo indefinido. Tanto quanto se pode adiar a vida. De qualquer modo, desconheço a data de validade.

Suburban sexy 31


Cross-selling excêntrico, versão lusitana.

Não há coincidências

   
Lido recentemente no iOnline. É "oitro" acordo, só da Lusa. Vou designar o meu por "cornográfico", "horto gráfico" ou ainda "tripa à portuguesa". Vai haver um para todos.

Hard copy 64

  
Ou quando "usar a cabeça" é a expressão figurativa do seu oposto. Aqui, hard design seria mais adequado.

The dwindling department


Mais um colega que nos deixa. As boas pessoas começam a rarear ominosamente. Uma constante, de há tempos para cá, mas menos mal que, desta vez, foi por vontade própria. Haja coragem e iniciativa. Felicidades, Nuno!

Ilustração: Jean Julien

24.10.12

Acordo, o escambal!


Por força das circunstâncias tenho vindo estudar, de forma lenta e dolorosa, o velho novo acordo ortográfico. E quanto mais me adentro na coisa, mais se adensa, não já o cepticismo, mas a pura aversão. Macacos me mordam se vou adoptar a bem este monstro criado pela burocracia travestida de pedagoga. Ora vejamos alguns exemplos, retirados de um blog brasileiro apropriadamente intitulado Português na Veia (à força).

No que diz respeito à acentuação gráfica:

1) Some o acento dos ditongos “éi” e “ói” de palavras paroxítonas.

Antes: jibóia, assembléia, idéia, heróico.
Depois: jiboia, assembleia, ideia, heroico.

ATENÇÃO! Só desaparece o acento das palavras paroxítonas. As oxítonas continuam acentuadas.

Ex: papéis, herói, dói.


Tendo em conta que o principal fundamento das alterações é de ordem fonética (a actualização que a oralidade imprime na escrita e consequente necessidade de normalização - regras que, lembre-se, não são meramente gramaticais, mas também morfológicas e sintácticas, com as decorrentes implicações semânticas. Um processo lógico e normativo que, naturalmente, se esvaíu na diarreia mental que é o A.O. de 1990), faz todo o sentido que, no português de Portugal, desapareça o acento (diferenciador fonético), por exemplo, em "heroico", que, como se sabe, é maioritariamente pronunciado com o [o] fechado, como se estivéssemos acomeditos de uma constrição faríngea ou com um grave problema no maxilar. Por outro lado, "papéis", claro, a grande maioria dos portugueses articula com o [e] aberto, escancarado a bocarra para produzir um som vocálico capaz de puxar o vómito.

(...)

4) Some o acento diferencial das formas pára/para, péla/pela, pêlo/pelo, pólo/polo e pêra/pera.

Antes: pára, péla, pêlo, pólo e pêra.
Depois: para, pela, pelo, polo e pera.

ATENÇÃO! O acento circunflexo para diferenciar as palavras forma/fôrma pode ser usado opcionalmente. Indica-se o uso do acento para conferir maior clareza.


Pois então, não sendo difícil qualquer desempate contextual entre "pêlo" e "pelo", ou "pára" e "para" - porque os falantes portugueses estão entre os mais proficientes do cosmos e isto só vem facilitar a comunicação entre a malta - é absolutamente imprescindível que, de acordo com o racionalismo puro que emprenhou estas deduções linguísticas, "forma" e "fôrma" se diferenciem SEMPRE nas formas falada e escrita. Entretanto, caga nisso que o pretérito perfeito e o presente do indicativo ("andamos/ andamos") não comporte qualquer traço distintivo. Genial! Recomenda-se, portanto, ter um caderninho sempre à mão para eventuais esclarecimentos escritos ou desenhados.

5) Desaparece o acento agudo no “u” forte dos grupos que/qui/gue/gui de verbos como apaziguar, averiguar, arguir.

Antes: apazigúe, averigúe, argúi.
Depois: apazigue, averigue, argui.


(Conjugação do verbo "arguir", aqui.)

Quanto a esta pérola, que começa por ignorar a particularidade dos grupos [gu] e [qu], dá origem a tal confusão que prefiro transcrever o texto de um especialista, para eventuais interessados em (tentar) perceber a choldraboldra instalada:

Ora, quanto ao verbo arguir, eu é que faço algumas objecções na nova grafia recomendada pelo novo AO. De facto, argui («ele a.»), arguis («tu a.»), arguem («eles a.») deixam de ter acento. No meu ponto de vista, porém, no grupo gu ou no qu, o u, indissociável da consoante, ou é um símbolo que não se pronuncia ou tem o valor de semivogal quando não é tónico. É esta particularidade que não permite separar o u da vogal seguinte na translineação quando o u se pronuncia.

No novo AO, assemelha-se a grafia de argúi à de intui, quando as características do grupo gu são peculiares, o que justifica a diferença entre, por exemplo, arguimos e intuímos (o novo AO tem delinquimos, logo será na nova regra arguimos, como tem sido sempre, incoerentemente porque se depreende que passa a ser arguís [vós], como delinquís [vós] no texto).
Não creio que esta novidade, ao arrepio das decisões de bons vernaculistas anteriores, seja obra portuguesa.

Conclui-se:

Primeiro, que a inferioridade está agora do lado de Portugal. Se não podemos culpar os brasileiros por terem assim um amor tão grande à nossa língua, a ponto de apresentarem já um trabalho monumental sobre o novo AO, o que devemos é lamentar que não haja da nossa parte amor equivalente.
Em segundo lugar, lembra-se que aberto um precedente pelo Brasil em não respeitar o texto do acordo de 1990, também eu posso recusar em Portugal as novas formas do verbo arguir recomendadas pelo novo AO; e fica aberta a porta para uma disputa de alterações discricionárias ao texto do acordo, dado que em Portugal estamos sem rei nem roque.

D´Silvas Filho, in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 2009

Em diversos suportes "explicativos" do novo A.O., atesta-se, com confiante sapiência, que "(...) as conjugações do [sic] verbos 'arguir' e 'redarguir' deixam de ter acento" (in Aprende o Acordo Ortográfico com o... Prof. Girassol, Girassol Edições, Lda). E mai'nada. Pobres crianças. Pobres de todos nós.

Poderia ainda referir a acentuação algo discricionária dos verbos terminados em [guar], como "enxaguar", de acordo "com a pronúncia", mas já estou exausto. Onde apelo que se passe a grafar de acordo com as diversíssimas variações regionais da mesma, para tornar esta merda ainda mais divertida e desafiante.

Ilustração: Leslie A. Wood

4.10.12

Nunca foi diferente


"Your letter riled me to such an extent that I’m answering immediately. Who are all these ‘real people’ who ‘create business and politics’? and of whose approval I should be so covetous? Do you mean grafters who keep sugar in their ware houses so that people have to go without or the cheap-jacks who by bribery and high-school sentiment manage to control elections.

(...)

It seems to me I’ve let myself be dominated by ‘authorities’ for too long — the headmaster of Newman, S.P. A, Princeton, my regiment, my business boss — who knew no more than me, in fact I should say these 5 were all distinctly my mental inferiors. And that’s all that counts! The Rosseaus, Marxes, Tolstois — men of thought, mind you, ‘impractical’ men, ‘idealist’ have done more to decide the food you eat and the things you think + do than all the millions of Roosevelts and Rockerfellars that strut for 20 yrs. or so mouthing such phrases as 100% American (which means 99% village idiot), and die with a little pleasing flattery to the silly and cruel old God they’ve set up in their hearts."

"F. Scott Fitzgerald Responds to Hate Mail", por Maria Popova, Brain Pickings Weekly, 24/09/2012

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